|
VARINO “ CASTRO JÚNIOR” – LX-203-AL EM FEVEREIRO DO ANO DE 2004
Dou ínicio ao meu primeiro diário de bordo, começando por contar a já longa história da minha vida.
Nasci no ano de 1946, nos estaleiros da Mutela - Cova da Piedade, por vontade do armador "João de Castro".
Enquanto me construíam, nasceu um filho, ao meu dono. Esse "rebento" foi baptizado de "João de Castro Júnior". Em homenagem, ao dito, fui baptizado de "Castro Júnior", e em homenagem a toda esta história continuo a manter o mesmo nome.
Naquela época havia uma competição entre armadores, de mandar construir barcos maiores, mais bonitos e elegantes que os então existentes.
Assim nasci eu, com capacidade de carga de 180 Ton., belo e elegante, sou provavelmente o último e maior varino construído. O meu mastro era imponente, 26m de altura, o que me proporcionava uma área vélica maior que os meus parentes, permitindo-me uma maior velocidade. Era o maior, mais bonito e veloz varino do Tejo.
Este tipo de barco, como eu, varino, tem uma particulariedade única: o meu fundo é convexo ( curvo para o interior ).
Essa característica permite-me chegar onde outros não chegam. Sou popularmente chamado do tipo de água acima, o que significa que subo no rio mais acima.
De resto, sou em tudo semelhante a uma fragata, com excepção do fundo convexo e da proa recurvada.
Trabalhei de 1947 a 1949 a carregar sal a granel das salinas da margem sul para Lisboa. O sal a granel, sempre húmido, impregnou-me as madeiras do fundo e do costado, o que me deu uma grande capacidade de resistência às doenças.
Grande parte das 140 ton. das madeiras do meu corpo, ainda são de origem. Sou construído em pinho bravo e manso.
Seguidamente, transportei ferro para a construção da ponte sobre o Tejo, em Vila Franca de Xira, "Ponte Marechal Carmona".
Mais tarde, transportei cargas diversas entre vários portos, cortiça de Abrantes para Lisboa, peixe e sal de Lisboa para Constância, melão e tomate da Azambuja para Lisboa, arroz de Alcochete para Lisboa, vários materiais de construção de Lisboa para outros locais.
Carreguei e descarreguei muitos navios que ficavam fundeados ao largo, levando as suas cargas para vários portos.
Com o desenvolvimento das vias de comunicação terrestres e a nova ponte sobre o Tejo, "Ponte 25 de Abril", assim como o aparecimento de barcos em ferro e a motor, fui relegado para o esquecimento. Fui abandonado na Moita e aí iria morrer esquecido.
Eis que, em 1995, um grande amigo meu, o Raúl Carregoso, engenheiro de profissão, grande navegador e desportista náutico, resolveu dar-me uma nova vida. Contratou outro meu amigo, o Mestre Zé Lopes, dos Estaleiros Navais do Gaio-Moita para a minha reanimação. O Raúl Carregoso é o meu segundo pai.
Foram três anos de grandes e pesados trabalhos.
Repararam-me a quilha, os dormentes, os paus de aresta, as cavernas, as balizas, etc. Preparam-me para esta actividade que agora exerço, a marítimo-turística. Deram-me casas de banho, cozinha, bar, etc, etc. Ah! E deram-me um motor. Já não ando à vela! Pode não ser tão bonito, mas é mais prático.o.
Passeei turistas por altura da Expo 98' em Lisboa, depois continuei e continuo até aos dias de hoje.
Gosto muito deste trabalho. Levar as pessoas a passear é bem mais agradável que levar sal, madeira, carvão e aço "às costas" de um lado para o outro.
Em 31 de Dezembro de 2003, fui adquirido pela Nabantrans / Transtróia, para continuar esta actividade (Estou com sorte!)
Em ínicio de Janeiro de 2004, fui conduzido da Moita para o Seixal, navegando sobre os baixios da praia "Copa Cabana", frente ao Barreiro, pelo meu amigo João Frias, "foi nuita giro".
Em Fevereiro de 2004, fui para a Rocha Conde de Óbidos, onde me trataram de pequenas mazelas e me embelezaram. Com muito amor e carinho - fiquei muito vaidoso - Já me alcunharam de Varino Vaidoso. Agora faço passeios turísticos no Tejo, organizados pela Transtróia.
Em Junho de 2004, fiz a primeira viagem turística em nome do meu novo dono, levei 26 alunos do Colégio Marista de Carcavelos a passear no rio Tejo. Continuo a transportar turistas e visitantes. Vou frequentemente a Vila Franca de Xira e a Valada do Ribatejo. Ah !! ... Gosto tanto dessas viagens, rio acima, faz-me lembrar os tempos antigos... rejuvenesço.
Visitem-me um dia destes, nem que seja só para tomar uma bebida ou ouvir uma musiquinha... Até lá!
|